Contos chineses em Hong Kong
Silvia Ribeiro *
No núcleo duro dos resultados da recente reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Hong Kong, há quatro pontos que se destacam: a obrigação de privatizar o acesso à água, educação, saúde, energia, biodiversidade, etc., sob o enganoso nome de “serviços”; o desmantelamento das indústrias nos países do Sul; a impunidade e apoio governamental à agricultura industrial para actuar contra a soberania alimentar e as agriculturas de pequena escala e camponesas em todo o mundo. Por último, mas altamente significativo, a operação de salvamento da OMC como instituição, com a admissão paradigmática dos governos do Brasil e da Índia no exclusivo clube dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e mais uns poucos governos que decidem por cima de todos os países em função dos interesses das grandes empresas multinacionais.
Alguns dirão que esta é uma visão exagerada e que ainda não se privatizam os serviços, mas que apenas se acordou «o início das negociações multilaterais sobre serviços» e precisões similares em outros temas, como o de que a União Europeia estabeleceu um prazo até 2013 para reduzir os seus subsídios agrícolas. Inclusive, para alguns meios de comunicação de massas, o novo papel do Brasil e da Índia representou um triunfo para os países do sul. Lamentavelmente, esta visão é resultado de pensar que nos circos romanos os cristãos tinham oportunidades frente aos leões, ou que convidar um par de plebeus para aplaudir a matança a partir do camarote imperial alteraria o resultado.
A realidade é que se conseguiu montar todos os governos no resvaladiço escorrega que termina na privatização dos serviços e dar ainda mais entrada às multinacionais em todos os âmbitos da vida dos países. À luz da história da OMC, isto é só questão de tempo. Tal como, quando se introduziu nela o tema da propriedade intelectual, em poucos anos se acabou por cumprir o objectivo central: obrigar todos os países a introduzir patentes sobre seres vivos para proteger os interesses das multinacionais farmacêuticas e agrícolas que comerciam com a vida.
Não é novidade que a OMC é a instância internacional governamental mais poderosa do planeta: o que ali se decide tem mais força do que qualquer legislação nacional ou internacional. Desde o seu início como GATT, sempre foi uma instituição profundamente antidemocrática, onde as decisões não se tomam realmente na assembleia de membros, mas em reuniões fechadas chamadas de “sala verde” (o que faz referência ao gabinete do director executivo do organismo), que são autoconvocadas e exclusivas entre representantes dos países poderosos, convidando ocasionalmente alguns outros.
Apesar de ser uma instituição tão poderosa, não deixa de ser uma fachada. Quem realmente decide são as megacorporações cujo poder continua a aumentar. Em 2004, as 200 maiores empresas controlavam 29 por cento da actividade económica do planeta. Devido às fusões, cada vez são menos, e em vários campos, como por exemplo no comércio de cereais, apenas três controlam mais de 75 por cento (Bunge, Cargill, Dreyfus); na área da água, a Veolia (ex Vivendi) e a Suez detêm 70 por cento do mercado; em sementes transgénicas só a Monsanto controla 90 por cento; na indústria farmacêutica, as dez maiores detêm 59 por cento do mercado global, situação que se repete em todos os sectores.
Não obstante o seu enorme poder económico, precisam de uma cobertura legal que lhes garanta que não terão problemas ao actuarem dentro dos países. Poderiam fazê-lo – e fazem‑no – em cada nação, já que na grande maioria as empresas estão entrelaçadas no poder político com relações que vão da dependência à corrupção. Mas como são empresas globais, resulta bem mais eficiente que um “governo mundial” obrigue todos a mudar as suas leis. Este é o papel da OMC.
No interior dos blocos de governos poderosos também há manobras, porque representam grupos empresariais que competem entre si. Justamente estas contradições, e os protestos cada vez maiores de organizações sociais, fundamentalmente camponesas, puseram em crise a existência do próprio organismo.
Muitos analistas consideraram que a instituição não suportaria um novo fracasso como os de Seattle e Cancún, simplesmente porque perderia a função para a qual foi criada. Neste contexto, resulta muito perverso o papel do Brasil e da Índia. Aparecendo como interlocutores “válidos” de países do sul, na realidade a sua pressão por acesso aos mercados do norte promove o aumento da agricultura de exportação manejada por grandes capitais industriais, que tem efeitos catastróficos nos camponeses e no ambiente dos seus próprios países. Capitais que são nacionais em absurda minoria – mas igualmente exploradores – e multinacionais na maioria ou a estas submetidos.
Com nada mais do que promessas adiadas, que ocultam uma reestruturação de subsídios para continuar a favorecer a agricultura industrial e acabar de liquidar os camponeses europeus, aceitaram e compeliram os demais países do sul a subir ao escorrega das reivindicações pendentes das multinacionais: abertura dos seus serviços e acesso aos seus mercados de produtos não agrícolas. A Coligação de Indústrias de Serviços, das multinacionais do sector, expressou entusiasmo pelos resultados que lhes oferecem «um novo impulso muito útil para negociações sérias no próximo ano».
Nem as manobras de governos “populares” nem a repressão – continuam presos 14 manifestantes em Hong Kong – acabarão com a resistência de camponeses e organizações sociais. Estão em jogo a soberania alimentar, os serviços básicos e a própria vida.
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* Investigadora do Grupo ETC.
