26 Outubro 2005

Direitos Humanos: Uma, duas... 20 Abu Ghraib

Gustavo Capdevilla

Grupos humanitários dos Estados Unidos denunciaram ao Comité de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas que existem dezenas de centros de detenção secretos no mundo nos quais Washington mantém um número desconhecido de prisioneiros, como parte de sua “guerra contra o terrorismo”. O Comité começou esta semana em Genebra a examinar a adesão dos Estados Unidos ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e, em particular, as acções do governo norte-americano na sua luta contra o terror. Os membros do Comité, formado por 18 especialistas independentes propostos pelo governo, ouviram nesta segunda-feira as exposições de organizações não-governamentais norte-americanas que acusam Washington de cometer graves violações.

A advogada Priti Patel, da organização Human Rights First (Direitos Humanos Primeiro), com sede em Nova York, expôs aos membros do Comité o problema dos lugares secretos de detenção de pessoas supostamente ligadas ao terrorismo. «Todos sabem das prisões na base norte-americana de Guantánamo, na ilha de Cuba; em Abu Ghraib, no território iraquiano, e na base aérea de Bagram, no Afeganistão», disse Patel. Mas há outros lugares de detenção que também todo o mundo sabe que existem, mas ninguém sabe quantos são nem onde ficam, acrescentou. Trata-se de estabelecimentos transitórios no Iraque e Afeganistão, localizados perto das zonas de conflito, mas que se deslocam para onde os Estados Unidos decidem, ressaltou.

«No Afeganistão existem cerca de 20 desses estabelecimentos de detenção, mas ninguém sabe quantas pessoas têm dentro nem como são tratadas», disse a advogada à IPS. «O pior é quando se desconhece inclusive a localização desses centros de detenção. Por exemplo, não sabemos quantos presos existem na base norte-americana da ilha Diego García, no oceano Índico, apesar de dispormos de informes confiáveis que fazem crer na sua existência», afirmou Patel. Os Estados Unidos recusam-se a negar ou confirmar esses centros secretos de detenção, «mas nós sabemos de pelo menos 36 pessoas que estiveram prisioneiras nessas instalações», acrescentou.

A reunião informativa de segunda-feira coincidiu com o anúncio de que o governo norte-americano apresentou na semana passada, com atraso, o seu relatório periódico a esse comité especializado da ONU. Embora o texto do documento de Washington ainda não tenha sido divulgado, activistas da sociedade civil disseram que além das considerações sobre o cumprimento do Pacto, o documento contém respostas a perguntas feitas pelo Comité e relacionadas com os denunciados abusos na luta antiterrorista. Nos últimos anos, o Comité havia se dirigido a Washington para reclamar a apresentação de informes atrasados e também para pedir explicações sobre as consequências das disposições adoptadas pelos Estados Unidos nessas acções.

O Comité havia expressado em particular a sua preocupação com as implicações da Lei Patriótica, em vigor desde Outubro de 2001 como uma das primeiras normas contra as atividades terroristas que os Estados Unidos implantaram depois dos atentados de 11 de Setembro em Nova York e Washington, que deixaram cerca de três mil mortos. As fontes da sociedade civil disseram que na carta que acompanhou a apresentação do relatório, o embaixador norte-americano junto às agências da ONU em Genebra, Kevin E. Moley, afirmou que o documento também continha referências «à discussão da aplicação pelos Estados Unidos da Lei Patriótica».

Moley afirmou ainda que, por «uma questão de cortesia», o informe seguia acompanhado de uma descrição separada relacionada com as pessoas que estão sob custódia das forças armadas do seu país, capturadas durante operações contra o movimento islâmico afegão Talibã, a rede terrorista Al Qaeda e seus integrantes e seguidores, bem como as capturadas durante a guerra, invasão e ocupação do Iraque, desde março de 2003. Este assunto foi uma das maiores preocupações que o Comité transmitiu aos Estados Unidos e a questão dominante exposta pelas organizações não-governamentais aos membros desse organismo.

Monique Beadle, da Organização Mundial pelos Direitos Humanos nos Estados Unidos, disse á IPS que os activistas expressaram ao Comité sua preocupação pelo descumprimento das disposições do Pacto, mas insistiram em particular na situação dos presos. «Um dos aspectos mais censurados pelos grupos humanitários é a detenção, inclusive de cidadãos de outros países, em lugares onde se pratica a tortura», explicou Beadle. Um caso significativo foi o de Ahmed Omar Abu Ali, um cidadão norte-americano que estava na Arábia Saudita em razão de estudos religiosos quando foi detido pelas autoridades locais sob instruções dos Estados Unidos, afirmou.

Abu Ali ficou 18 meses numa prisão na Arábia Saudita, submetido a tratamento abusivo. «Nas costas apresentava as cicatrizes de ferimentos causados pelas torturas que recebeu», disse Beadle. A organização que Beadle representa levou adiante um processo judicial nos Estados Unidos e conseguiu que um juiz reconhecesse que se esse grupo pudesse demonstrar o papel desempenhado pelo governo norte-americano na detenção e encarceramento de Abu Ali, se abriria a possibilidade de atribuir responsabilidade às autoridades. «Essa decisão judicial colocou o governo dos Estados Unidos em posição muito embaraçosa», disse Beadle. Sem que nunca fossem formuladas acusações na Arábia Saudita, Abu Ali foi levado para os Estados Unidos, onde permanece detido e o governo o acusa de se ter associado a supostos terroristas.

Tudo isso indica que os Estados Unidos tiveram todo o tempo o controle sobre a custódia de Abu Ali, pois no momento em que já não era mais necessário mantê-lo na Arábia Saudita foi muito fácil levá-lo de volta, insistiu o activista. A advogada também citou os casos de traslados de prisioneiros para lugares como o Egipto ou a Síria, «onde é sabido que serão torturados», garantiu. «Os militares norte-americanos sabem que em locais como esses se tortura os presos. Por esse motivo, o governo dos Estados Unidos emprega esse conhecimento em Guantánamo para pressionar um preso», afirmou Beadle.

O tratamento começa com o isolamento sensorial, onde o preso perde a noção das referências básicas. Depois é levado para um avião e voa por várias horas até finalmente aterrissar novamente em Guantánamo, embora lhe façam crer que chegou ao Egipto. Se não colaborar com o interrogatório, vamos torturá-lo, acrescentam. O Comité da ONU levará em conta estas denúncias das organizações não governamentais quando examinar o caso dos Estados Unidos, provavelmente durante a sua sessão de Julho próximo nesta mesma cidade suíça.

O Comité mantém actualmente a sua última reunião anual, que terminará no próximo dia 3 de Novembro. A primeira de 2006 acontecerá em Março, na sede da ONU em Nova York. O texto do relatório apresentado pelos Estados Unidos somente será distribuído pelas Nações Unidas após estarem disponíveis as traduções para todos os idiomas de trabalho, o que pode demorar pelo menos três meses. Entretanto, as organizações não-governamentais estimaram que o Departamento de Estado poderá colocar esse documento no seu site na Internet nos próximos dias.